sexta-feira, 30 de março de 2007

O País Mais Seguro do Mundo

Há uma velha história (verdadeira ou mito urbano) que um grupo terrorista internacional andou a estudar a hipótese de fazer um atentado no Aeroporto Sá Carneiro e, como não conseguiram perceber o esquema de segurança, desistiram. Pensaram que deveria ser extremamente avançado e que seria melhor não correr o risco.
No aeroporto de Lisboa já se deve ter passado o mesmo, mas certamente por razões contrárias. Seria tão fácil fazer lá um atentado que não merece a pena. Um bom ladrão não vai roubar um chupa a uma criança. Há limites para tudo e a reputação entre pares tem que ser mantida.

É verdade que eu estive em França em períodos de atentados e naturalmente, como todo e qualquer cidadão ali residente desenvolvi uma espécie de vigilância inconsciente em relação a sacos ou malas abandonados. Claro que aqui não se passa o mesmo e, ontem no aeroporto de Lisboa lá estava um saco preto (com ar suspeito) abandonado, bem visível (melhor, mais do que visível) por baixo do pequeno corrimão da rampa que dá acesso à saída de passageiros, com Multibanco ao lado (bastante frequentado por sinal), posto de informação turística e posto de Internet. Pensei que pudesse ser de algum dos utilizadores do Multibanco ou de algum dos outros serviços, mas nada. Iam-se embora e o saco lá ficava bem visível (embora ninguém desse por ele). Olhei à volta e certifiquei-me (com o meu olhar perspicaz) que não era de ninguém. Voltei a olhar à volta à procura de… um polícia. Não havia (que chatice, e agora?). Andei um pouco na direcção contrária à ameaça… não havia. Que fazer?... Dirigi-me então à saída de passageiros e avisei o segurança que partiu imediatamente para o interior para tomar medidas. Eu desci a rampa (pelo lado contrário à ameaça) e fui para a frente desta à espera da minha filha. Nisto vejo um polícia de trânsito a vir na minha direcção a falar ao telemóvel. Sei que fui mal educado por o interromper na sua chamada, mas felizmente ele pareceu não se importar muito com isso e eu informei-o do que se passava. Ele agradeceu-me desligou imediatamente o telemóvel e pegou no intercomunicador e lá se dirigiu para o local indicado.
Confesso que fiquei impressionado com a coragem dele pois foi para junto da suposta bomba e ficou lá à espera durante mais de 15 minutos por reforços especializados. Felizmente ainda há solidariedade entre colegas e outros dois polícias juntaram-se a ele para lhe fazer companhia enquanto o pelotão especial não chegava.
Entretanto a minha filha já tinha chegado e estou eu a falar com a hospedeira e a preparar-me para entrar com ela e a Luana para ir buscar a mala quando vejo um policia do Corpo de Intervenção a colocar finalmente a barreira de segurança. Quando sai já estava uma barreira de segurança de largos metros a toda a volta da área, com algumas portas do aeroporto fechadas e com polícia à porta. Aquela era a partir daquele momento uma zona de risco, visto já terem passado largamente os 15 minutos regulamentares.
Naturalmente e, apesar da vontade de ficar ali a ver, vim-me embora com a minha filha, até porque aquela era uma zona de risco de atentado.
A caminho da gare do Oriente fui a pensar naquilo tudo. Quantas vidas poderia ter salvo, as entrevistas exclusivas que ia dar a TVI, enfim, já me sentia um herói quando a minha filha me interrompeu com qualquer coisa (já não me lembro com o quê, pois estava demasiado compenetrado a sentir-me herói) e eu comecei a pensar nos mais de 15 minutos. Então finalmente fez-se luz. São os 15 minutos dos telefonemas! (Para o SIS, para a CIA, a Interpol, a Mossad, etc.) Claro que quando lá chegaram sabiam perfeitamente que não havia bomba e claro que os 3 polícias que lá estavam a guardar o saco também já o sabiam, mas havia que formalizar o processo e criar o perímetro de segurança, até porque o saco era preto e nunca se sabe se não estaria lá algum morcego morto para lançar um “encosto” (maldição) a alguém.
Fiquei feliz por saber que neste país estamos seguros até da bruxaria!

6 comentários:

jorge c. disse...

Clap Clap Clap! Bravo!

Mas tu não andarás nas drogas?? Bem, se andares continua porque está a ter resultados.

Uma curiosidade, o encosto não se referia só aos gatos? Tenho ideia disso, mas depois podemos ver.
Já sei que a tua filha está cá, por isso, que faça uma boa estadia e aproveita bem. Um beijinho para ela!

Marta Araújo disse...

É o admirável país que temos meus caros! Mas certo é que tu cumpriste aquela que era, a meu ver, a tua missão perante aquela situação. Eu diria que foste um herói porque cumpriste um dever cívico mínimo: o da segurança.

GRaNel disse...

Eu atrever-me-ia a dizer que no tempo de Salazar não havia nada disto... lol

Agora fora de brincadeira. É imensa (não consigo arranjar uma palvra maior) a estupidez das nossas forças. E o problema é que um dia destes, a bomba pode estar mesmo no saco preto.

filinto disse...

Muito bom, mesmo muito bom.

Hugo Valter Moutinho disse...

Caro Rui, estou sem palavras... Bravo!

Excelente texto!

Rui Vieira disse...

Delicioso texto! Já tinha saudades de ver a ironia latente e latejante do Rui.
Abraço e beijinho à Luana