segunda-feira, 21 de maio de 2007

uma sessão extraordinária e o post possivel

Não nasceu para o teatro, lembra-se perfeitamente de preferir o cinema e achava o teatro monótono e estático. Quis ser advogado mas volta a interessar-se pelo cinema; - queria ser realizador. Quis a sorte que quando começou a estudar na Academia se tenha desinteressado. Quis a sorte que José Caldas o tenha convidado para um mini-Lusiadas e a sua maneira de ver o Teatro se tenha transformado. Quis a sorte que tenha chegado ao Pé de Vento e começado a representar. Quis a sorte que hoje seja o actor Rui Spranger, no teatro e no cinema. Quis a sorte que hoje seja também, Rui Spranger, encenador de teatro. Substituir sorte por talento e dedicação.

Mesmo o Teatro sendo uma paixão de há anos, nunca a tinha partilhado. Muito porque “do Teatro não se fala, vê-se”. E assim foi. Livrámo-nos das cadeiras de pau desconfortáveis e rumámos à Vilarinha ver o Senhor Juarroz (da peça, também ela extraordinária, como a sessão, já se falou aqui e aqui). Foi uma viagem para lá da realidade acompanhando a (des)construção do raciocínio do Senhor Juarroz (interpretado pelo Rui). Do lado de cá da realidade, estava a mulher fiel e compreensiva (interpretada por Patrícia Queirós). Restantes créditos.

Para um analfabeto escrever é um trabalho manual, pensava o senhor Juarroz. É um trabalho físico semelhante a moldar barro ou coser um determinado tecido. Copiar uma frase torna-se semelhante a copiar o molde de um vaso; e um analfabeto tentando ler é como um míope que, afastado 100 metros, tenta observar os gestos de alguém(…)

Finda a peça, seguimos para a sala mais rica do Teatro, onde estão em exposição adereços, maquetas, fatos bem como instrumentos que contribuíram para o sucesso do Pé de Vento; – verdadeiros tesouros. Aproveitámos para ouvir o percurso do Rui, para falar do estado do Teatro em Portugal, para ouvirmos as estórias de uma carreira que já conta com mais de 15 anos. E é nesta altura que nos lembramos que vimos uma peça fantástica, por um preço que já não se usa e a sala estava longe de estar cheia…

Terminámos com uma visita ao Teatro. Do attelier de costura aos camarins (onde fizemos um aquecimento tal qual actores a sério) passando pela oficina, pela mesa de som e luz e pela teia (nem todos). Constatámos o grande trabalho de reconstrução que foi feito e a genialidade de um espaço que apesar de pequeno é extremamente funcional.

Em nome do Clube, aqui fica o nosso agradecimento muito especial ao Pé de Vento por nos ter recebido e ao Rui por tão pacientemente nos ter mostrado o outro lado, desta vez, do Teatro.

Um último aviso, a peça acaba no dia 27 deste mês. Quem ainda não viu, não perca a oportunidade.

6 comentários:

jorge c. disse...

Calaceiro!!!!!!!!!!!

Marta Araújo disse...

Dois adjectivos para qualificar aquele Sábado: surpreendente e bom (muito bom). Para simplificar, e embora não seja exactamente a mesma coisa, vou usar o surpreendemente bom.

Foi surpreendentemente bom ter a possibilidade de ver, no meu caso pela primeira vez, o Spranger em palco. Acho que ele esteve muito bem e que a peça é muito boa (mas sobre a peça não digo mais nada a não ser realçar que vale a pena, mas mesmo a pena, ir ver). Fez-me sorrir (gosto sempre quando me fazem sorrir :)) tendo chegado mesmo a soltar uma ou outra gargalhada um bocado acima dos decíbeis mínimos aceitáveis :D

Foi surpreendentemente bom, e como diz alguém, «ter entrado num mundo que não é meu» mas que considerei absolutamente fascinante. Quando temos a possibilidade de sentir, ver, tocar e acima de tudo perceber, o que quer que seja, tudo se torna mais fácil de entender, mas principalmente de sentir. Foi agradável ter ficado in love por umas meias e por um fato preto, que há partida não tem nada de especial, mas que apresentava uma mão que, e sem eu perceber porquê - a sério que não percebi - fez-me ficar tipo alien agarrada aquilo. Nova foi também a informação de que o Jorge sabe tocar, e muito bem, piano. Sim porque nós tivemos a possibilidade, ainda que por pocuo tempo, de o ouvir tocar.

Foi surpreendentemente bom ter conseguido falar sobre cultura, hábitos, povos, Governos, Rios e coisas que tais, de uma forma muito agradável e com pontos convergentes com o Spranger. Foi-o também conhecer melhor as pessoas, os seus trajectos e as suas formas de vida. Foi surpreendetemente bom ter tido a possibilidade de ver pessoas que não via há muito tempo. Soube bem.

Em suma...soube muito bem porque o Spranger nos conduziu, e lindamente, pelo mundo que é seu e fê-lo sempre com um fantástico brilho nos olhos. Isso faz toda a diferença e a ele o meu sincero agradecimento. Obrigada ao Clube pela injecção de conhecimento e de sensações que me proporcionou.

Ao Granel os parabéns pelo post. Não entendo a parte do «post possível». Parece-me que está bom.

jorge c. disse...

Vá lá! Mesmo assim tardou o post.

Foi uma sessão realmente extraordinária. Eu já conhecia parte do percurso do Rui por conversas que vamos tendo. Talvez por isso compreenda o prazer que lhe deu fazer esta sessão no Sábado! Como ele tão bem sabe partilhamos esta paixão. Mas para o Rui parece-me que passa a paixão, é já a vida dele, ou grande parte dela. Portanto, deixo-lhe o meu obrigado pela sessão em forma de grande abraço!

Quanto ao calaceiro... vá lá, lá saiu qualquer coisita de jeito.

otília disse...

Sábado à tarde, uma sala de teatro, uma peça, um cenário fabuloso, dois actores, uma excelente interpretação do Spranger (já começa a ser hábito)… Que nos recebeu com a sua usual descontracção e simpatia, e nos admitiu e conduziu numa viagem pelo seu mundo, de camarins, mesas de luz, bastidores, … escadas de caracol (10m), e uma “teia”…

O Rui partilhou uma das suas paixões, provando que paixão é paixão e não se descreve, vive-se…

Obrigado ao Clube por me permitirem partilhar esta sessão extraordinária...

Parabens ao Rui por mais uma excelente interpretação, e ao Granel pelo post.

Cláudia N. disse...

Granel gostei muito do teu post, transmitiu muito sentimento. Gosto de posts assim.
Quanto à peça já a tinha visto, fui à estreia, e gostava de a ver outra vez, e como já tinha dito aqui no blog, adorei a peça e o Rui esteve de facto muito,muito,muito bem, e a "mulher" dele é fabulosa.

dass disse...

Não vou ver, mas fico com pena, sobretudo pela emoção aqui transmitida. Parabéns pela sensibilidade