quinta-feira, 10 de maio de 2007

Um soco no estômago


♪♪♪
Esta é a tua vida vida e está a terminar a cada minuto que passa.

Tudo começou com uma dia estafante e a necessidade de descomprimir. Nada como ir ao cinema para distender, pensou. É claro que, como veremos à frente, há coisas mais baratas do que uma sessão de cinema e, é claro, corremos o risco que o tiro nos saia pela culatra e nos fira no pescoço, a seu tempo voltamos a isso. Ele foi ver o filme e, digamos assim, levou com um soco no estômago. “Fight Club” não é um filme banal. Não é um filme para relaxar. Por isso, não admira que o Zé Tó o tenha visto em silêncio, sem comentários jocosos. Que tenha regressado a casa emudecido, tal como o seu companheiro de cinema. E que tenha mantido o silêncio até que lhe sai o raciocínio e o verbo: “O gajo é capaz de ter alguma razão, há coisas para lá das que nos mostram”. Descomprimir, distender e relaxar são verbos que não conjugam com Palahniuk, Fincher, Pitt, Bonham-Carter e Ed Norton em “Clube de Combate”. O autor de “Choke”, o realizador de “Se7en”, o actor de “Snatch”, a Noiva Cadáver e o protagonista de “25.ª hora” não são exemplos de divertimentos, nem os personagens. De volta ao centro da arena. “Quem vier pela primeira vez ao Clube de Combate tem de lutar”. Mas não foi a púrrrada que fascinou o Zé Tó. Foi a capacidade de o homem se libertar do que é. Mudar. A frase, das muitas que os autores indrominaram, que recordou e sublinhou foi quando Tyler Durden e... Edward Norton apanham o trabalhador de uma loja de conveniência e lhe apontam uma arma à cabeça. Completamente perdido, com tudo perdido para aqueles dois aparentemente vulgares assaltantes, com a pistola na nuca, o homem nem conseguia falar. Até que eles o obrigam a regressar aos estudos de veterinária: "Só quando perdemos tudo é que somos livres de fazer seja o que for". Ele perdeu. Quando acordar é um homem novo: "Amanhã vai ser o mais belo dia da vida de Raymond K. Hessle. O seu pequeno-almoço vai saber melhor do que qualquer refeição que tu e eu alguma vez tivemos". A proximidade da morte - já agora, já sabem o que gostariam de fazer antes de morrer? - liberta. O sono, ao contrário do que acontecia com Tyler Durden, adormece-nos, nem que para isso seja necessário ir ouvir as desgraças dos desgraçados, um espectáculo mais barato do que um bilhete de cinema. Não esquecer, esta é a tua vida vida e está a terminar a cada minuto que passa. E quem sabe até consegues destruir o sistema, vencer a solidão e ganhar o amor, dando em troca apenas um tiro no pescoço.
Se estás a ler, então este aviso é para ti. Cada palavra que lês é outro segundo perdido na tua vida. Não tens mais nada para fazer? Honestamente, a tua vida é tão vazia que não consegues pensar em nada melhor para fazer durante este tempo? Lês tudo que se é suposto ler? Pensas tudo que se é suposto pensar? Comprar o que te é dito que queres? Ter o teu apartamento? Conhecer um membro do sexo oposto?
Despede-te. Começa à porrada. Prova que estás vivo. Se não reclamas a tua humanidade vais-te tornar numa estatística.
Foste avisado,
Tyler

Site/Wikipedia/As citações do filme/REM/

9 comentários:

GRaNel disse...

Sem pancadinhas nas costas (eu e as minhas bocas):

PARABENS aos dois.

E repito a frase "Só quando perdemos tudo é que somos livres de fazer seja o que for".

GENIAL

ps - adorei a imagem

filinto disse...

Quais pancadinhas, pá? Então um gaijo demora três horas a faze rum post deste tamanho e vens gabar a imagem??? Bah!
Abraço

Marta Araújo disse...

Foi literalmente "um soco no estômago" - para não dizer uma série de socos - que eu apanhei ao ver o filme. Como tive oportunidade de dizer na sessão, eu nunca o tinha visto e achei-o violento. Leia-se violento não no sentido físico (embora também um pouco...tenho de confessar) mas fundamentalmente do ponto de vista psicológico.

É certo que a palavra «violência» ter um carácter depreciativo. Mas como está patente no filme, pelo menos no meu ponto de vista, às vezes necessitamos dela (da violência psicológica) para perceber uma série de coisas. Coisas essas que nos são imprescindíveis. Efectivamente só quando uma série de coisas (desculpem a repetição da expressão) nos corre aparentemente muito mal e nos obriga a bater no fundo é que conseguimos colocar os pés no chão de tal forma que, quer queriamos quer não, ganhamos o verdadeiro do impulso para recomeçar.

Excelente filme pelas mensagens que veicula. Obrigada Zé pela partilha e por me teres obrigado a pensar e a relembrar uma série de coisas. Quando ao post não digo nada pá...a minha opinião é literalmente inquinada. Ainda assim...llooll não resisto a dizer que está fantástico, sendo certo de que de outra coisa não estava à espera.

jorge c. disse...

Fuckin' Hey! Both!
Eu gosto mesmo de andar à porrada. Se ficasse caladinho num canto era outra pessoa qualquer, como acho que quem evita andar à porrada é frouxo, e em homem frouxo não se confia. Até o Gandhi andou à porrada.
Quanto ao resto: puta que vos pariu aos dois! Muito bom!

Aguia disse...

Bem caro Zé Tó parabéns pela sessão pois fez-me rever um grandioso filme que nos faz pensar, de uma forma pura e liberta de qualquer preconceitos, sobre os verdadeiros valores da vida, que foram esquecidos e substituídos pela ultima colecção de moveis baratos da IKEA.

Realmente ver um filme e logo de seguida poder discutir-lo torna-o mais rico, pois não ficamos só com a nossa visão, mas sim com uma serie de visões validas, que fornecem uma maior riqueza emocional e intelectual ao respectivo filme.

Filinto, meus parabéns de forma sincera ao post. Pois transmitiste de forma soberba a sessão, recriando-a com tuas palavras inspiradas nas citações ditas na cave do pinguim.

Os meus mais sinceros parabéns aos dois, presto uma venia :)

forte abraço

Rui Vieira disse...

Filinto, já pensaste dedicar-te ao jornalismo? he he.
Embora não tenha estado presente consigo perceber que a sessão foi extremamente combativa. O filme proposto (que ainda não vi)despertou as mentes e obrigou a pensar.
Parabéns pela escolha/sugestão, Zé tó.
P.S. isto de lerem post's e apreciarem fotos de gajos, cof cof.

Mosquitto disse...

Grande Sessão com a apresentação de um grande filme que vale sempre a pena (re)ver.
Zé Tó, Parabéns pela Escolha e Fil, Parabéns pelo Post.

"Só quando perdemos tudo é que somos livres de fazer seja o que for"…

Arianrhod disse...

E foi assim que o meu Ego ficou estendido no chão sem conseguir sequer articular uma vogal. Ele já sabia que os argumentos que usava eram frágeis, mas ser atingido pelo ricochete de todos eles em duas horas, causou-lhe danos irreversíveis. E sempre que procura definir-se com a aquisição de mais algum elemento material, as cicatrizes ainda doem e relembram -lhe que ele não é aquilo que tem.

E se "Só quando perdemos tudo é que somos livres de fazer seja o que for", então sejamos a Fénix renascida das cinzas, capazes de dar vida aos nossos sonhos... afinal "sem dor, sem sacrifício, não teríamos nada".

Obrigada, Zé, pela oportunidade de relembrar quem sou e do que ando aqui à procura...

Parabéns Fil, pelo post fantástico que acertou em cheio no tom do filme!

Hugo Valter Moutinho disse...

Fight Club é um filme fantástico (quase tão fantástico como o teu post Filinto...)! Além de ter um soberbo elenco com brilhantes interpretações tem um realizador que roça nos âmbitos da genialidade. Tenho pena de não ter ficado para a discussão final, mas de qualquer maneira dou os parabéns ao Zé Tó pela escolha do filme e tenho a certeza que ele o "defendeu" bem na discussão...