segunda-feira, 23 de abril de 2007

Porque hoje é o Dia Mundial do Livro...




Os livros

Os livros virão ter a minha casa
Pelo nocturno vale
Pelos caminhos breves
Pelas sendas de azul
Pelas florestas ao longe
Os livros virão ter junto de mim.

Abro-os numa página
Uma página ao acaso
Lá dentro os teus olhos
Vão olhar-me de frente
Uma página adiante
Ou duas para trás
Hão de ter teus cabelos
Enrolando nos meus.
Uma página em branco
É a tua boca agreste
Como num sobressalto.

Os livros virão ter a minha casa
Mas em cada livro aberto
Em cada letra lida
És sempre tu que estás
Tal como em cada casa
Em cada rua à chuva
Cada montra olhada
Cada dia a dia
É teu corpo que sonho
Teu olhar magoado
Tua voz que cantava
A linha dos teus joelhos
Sobrepondo-se ao mar.

E nesses livros todos
Que me enchem as estantes
Nas suas gravuras secas
Suas letras esguias
Nas palavras que formam
O idioma é só um
A frase diz o mesmo
Só tu saberias
Traduzi-las para mim.

Os livros virão ter a minha casa
De uma qualquer maneira
Talvez pelo correio
Ou por alguém que os traga
Mas eu não saberei lê-los
Nem os seus dizeres se voltam
Para os meus olhos cegos
Desde que tu partiste.

Mas os livros ficarão
Para sempre guardados
Nesse lugar a que chamo
A minha casa.


in "Hotel Spleen"
Bernardo Pinto de Almeida

4 comentários:

filinto disse...

Conselho: "Pintor de Batalhas", de Arturo Perez-Reverte. Não será, não está a ser para mim, uma leitura fácil, mas é bom.

GRaNel disse...

Eu aconselharia qualquer um de Bret Easton Ellis.

Mas esta história fez-me lembrar que ainda não escrevi o meu livro, que julgo (e espero) não ter nenhum filho, e ainda não plantei nenhuma árvore (os arbustos contam?) mas tenho-me divertido pa c...

GRaNel disse...

E um óbvio obrigado à Claudia por nos relembrar este dia...

beijinho

jorge c. disse...

Eu, embora atrasado, sugiro «Lenin oil» do emergente Pedro Rosa Mendes. Uma leitura difícil mas de uma qualidade inquestionável.
O meu clássico será «O som e a fúria» de William Faulkner, uma obra que me dá sempre um inesgotável prazer de visitar.
Nos autores portugueses, consagrados, escolho «Manhã Submersa» de Vergílio Ferreira.
Já na poesia a minha preferência neste momento vai para António Ramos Rosa - «Génese».