segunda-feira, 20 de março de 2006

Ainda a marchar...

"Resta acima te de tudo essa capacidade de ternura, essa intimidade perfeita com o silêncio. Resta essa voz intima pedindo perdão por tudo. Perdoai! Eles não têm culpa de ter nascido. Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo, essa mão que tateia antes de ter, esse medo de ferir tocando, essa forte mão de homem cheia de mansidão para com tudo o que existe. Resta essa imobilidade, essa economia de gestos, essa inércia cada vez maior diante do infinito, essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível, essa irredutível recusa à poesia não vivida. Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento de matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade do tempo, essa lenta decomposição poética em busca de uma vida só, uma só morte, um só Vinicius. Resta esse coração queimando como um círio numa catedral em ruínas, essa tristeza diante do cotidiano ou essa súbita alegria ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória. Resta essa vontade de chorar perante a beleza, essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido, essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa piedade de sua inútil poesia e sua força inútil. Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhando de pequenos absurdos, essa tola capacidade de rir à toa, esse ridiculo desejo de ser útil e essa coragem de comprometer-se sem necessidade. Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vaguesa de quem sabe que tudo já foi, como será, como virá a ser, e ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje. Resta essa faculdade incoercível de sonhar, de transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade de aceitá-la tal como é, essa visão ampla dos acontecimentos e essa impressionate e desnecessária paciência e essa memória anterior de mundos inexistentes e esse heroísmo estático e essa pequenina luz indecifrável, a que às vezes os poetas tomam de esperança. Resta essa obstinação em não fugir do labirinto, na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente. E essa coragem induzível diante do grande medo e ao mesmo tempo esse terrivel medo de renascer dentro da treva. Resta esse desejo de sentir-se igual a todos, de reflectir-se olhares sem curiosidade e sem história. Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade de não querer ser príncipe senão do seu reino. Resta essa fidelidade á mulher e ao seu tormento, esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável. Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços e esse eterno ressuscitar para ser recrucificado. Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio pelo momento a vir quando emocionada ela virá me abrir a porta, como uma velha amante sem saber que é a minha mais nova namorada."

«O Haver»
Vinicius de Moraes

3 comentários:

Rui Vieira disse...

Grande Jorge! Entrar aqui e poder ler um poema é uma prenda que não esperava. E que boa escolha fizeste!

Já agora, deixo um desafio a todos: Amanhã, dia 21 é o Dia da Poesia, porque não escolherem um poema e partilhá-lo nesta nossa casa? (cada vez mais ampla e melhor alicerçada).

Anónimo disse...

o nosso blog é cada vez mais um espaço apetecível onde cabem todos os tamanhos e todas as nossas fraquezas.apoiado Jorge Carvalho pelo lançamento deste belíssimo pensamento de um brasileiro do tamanho de todos NÓS.vitor elyseu.

Jorge Carvalho disse...

Boa sugestão! Amanhã em vez das farpas podíamos fazer algo diferente e dar as boas vindas à Primavera comemorando o dia da poesia. Tudo de uma forma legal, como sempre! Está lançado o repto.