quarta-feira, 18 de julho de 2007

Cão como nós

Depois de, na semana passada, ter tido um dia de cão, ontem tive uma noite de cão. E como o apartamento e os horários me impedem de ter cão, ele - o cão, esse companheiro - vai aparecendo das formas mais estranhas, por exemplo, como me aconteceu há pouco, quando estava a actualizar os arquivos word:

Cão

Cão passageiro, cão estrito
Cão rasteiro cor de luva amarela,
Apara lápis, fraldiqueiro,
Cão liquefeito, cão estafado
Cão de gravata pendente,
Cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
Cão ululante, cão coruscante,
Cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão ali, e sempre cão.
Cão amarrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal de poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moido de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção,
cão pré-fabricado,
cão espelho, cão cinzeiro, cão botija,
cão de olhos que afligem,
cão problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!


Um poema de Alexandre O'Neill - que tinha publicado no meu primeiro blog, o apagado Driving Miss Daisy e então encontrado no Janela Indiscreta - que dedico ao Cacau e ao Águia. Sem insulto.

4 comentários:

Marta Araújo disse...

Ontem a noite foi, e sem qualquer margem para dúvidas, de cão. Mas no melhor sentido possível :D

Um completamente apoteótico e absolutamente 'danado pa brincadeira e pa palermice' e o outro lindo, lindo, lindo, lindo, lindo e 'fófinho' que até dói :D

jorge c. disse...

Agora imagina que depois de declamares um poema do grande O'Neill começavam a troçar do Águia e a chamarem-lhe cão. Cão para aqui, cão para ali. Era bonito, não era? Sacristas d'um raio!

Recuso-me a tecer comentários sobre um cão com um nome completamente amaricado!

Aguia disse...

Poema sublime... gostei :)

E tiro-te o chapeu e agradeço a dedicatória :) abraço

GRaNel disse...

O Cacau ainda não consegue ler mas agradece o gesto. lol

Grande abraço e obrigado

E tu, minorca cabeçudo com óculos, lembra-te só desta expressão: Aquele gajo é um tone , um verdadeiro Jorge.