segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Liberdade

Há cerca de um ano atrás, na Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa, apareceu, por obra e graça do Espírito Santo, um folheto anónimo do tipo contra-informação. Na altura pertendia escrever um artigo para o Critério (o jornal da faculdade), mas depois entendi que não o deveria fazer, porque ía entrar em defesa de um professor e de um funcionário que foram insultados, e para que não parecesse que havia segunda intenção na minha atitude, preferi não fazer nada.

Contudo, é com muita tristeza que tenho de voltar a pegar neste tema e partilhar convosco uma das coisas que mais impressão me faz na sociedade democrática.

Quando os homens têm uma ideia, uma convicção ou o que quer que seja, devem defendê-la com unhas e dentes. Mas acima de tudo, devem assumir o que defendem - uma opinião, um estudo, um juízo de valor que seja. Não deve, pois, o homem esconder-se por trás do anonimato.
O anonimato era compreensivel há 35 anos devido a um medo qualquer que pudesse existir. Não nos dias de hoje. Nos dias de hoje adquirimos, sem duvida, liberdade de expressão. E se conquistámos este direito tão legitimo, não é certamente com o anonimato que o vamos defender.

É importante compreender o conceito de responsabilidade, em primeiro lugar. Só um incapaz não entende que a partir do momento em que passa a ser responsável por si mesmo tem de se responsabilizar pelas suas atitudes, assumindo cada acção, cada palavra, cada gesto. A Honra do homem está na assunção de toda a atitude e conduta humanas. De resto, se todos formos a pensar, os nossos erros devem ser por nós assumidos para não prejudicar os que nos rodeiam. Só assim é possível um convívio saudável em comunidade.

Em segundo lugar, penso que só alguém com muito pouco espaço ocupado no cérebro se usa do anonimato para injuriar, insultar ou difamar terceiros. Ora, neste caso o anonimato ganha outro alcance que é o da quebra das regras de liberdade. Segundo o que nos é ensinado desde cedo, a nossa liberdade acaba onde a dos outros começa. Ser livre na expressão não é usar conquistas como jornais, internet, ou outros meios de comunicação disfarçado, tecendo críticas aos outros. Não! A isto a sociedade concede o nome de cobardia, desonestidade intelectual. Assim, cobardia significa pusilanimidade, que por sua vez significa fraqueza de ânimo. Esta fraqueza de ânimo é, acima de tudo, a atitude leviana com que se age perante qualquer situação, seja ela por acção ou omissão.

Em suma, é claro que isto não acontece no nosso Clube dos Pinguins, porque, felizmente, somos incansáveis guerreiros da democracia em que cada um de nós acredita, partilhamos valores e convicções. Todavia, é com muita tristeza que vejo que nem todos os que pertencem às nossas gerações foram tão bem educados como nós e, como tal, não têm capacidade de discutir assumindo frente a frente os seus ideiais, de cabeça erguida e nem sequer de partilhar aquilo que de positivo retiram do mundo.

Como diz o Grande Palma: «Pois é... pois é! Há quem viva escondido a vida inteira! Domingo sabe de cor o que vai ser Segunda-Feira»

P.S. Continuamos lá, na Quinta-Feira (passo a publicidade)

O General

6 comentários:

GRaNel disse...

Tambem eu já me pronunciei sobre estes ataques cibernauticos. E foi com tristeza que o fiz. Tristeza porque o blog sempre foi um espaço plural de troca de ideias. E sabêmo-lo, muitas vezes se confrontaram ideias e nos dividimos nas opiniões. Mas sempre com grande respeito e até admiração pela opinião do próximo. Queremos continuar assim e continuaremos assim... nem que para isso, e como referi tenhamos de usar a pesada mão da censura (se é q a apagar comentário impróprios se chama censura, mas tambem não consegui encontrar nenhuma outra palavra)

Um grande abraço a todos os Pinguins que contribuiem para o nosso blog e tambem a todos os outsider's que já nos brindaram com os seu comentários.

Maria Morais disse...

O anonimato esclarece um ponto fulcral da sociedade contemporânea... a coragem, para assumir o que somos e o que fazemos. E mais que cobardia é ter medo da exposição perante os outros...
Como disse José Cardoso Pires:
Mais depressa se apanha um assassino que um morto, porque, como dizia o outro, o morto voa a cavalo na alma e o assassino tropeça no medo.

Balada da Praia dos Cães

Rui Vieira disse...

Detesto conceder tempo de antena a cobardes, mas a pertinência do Post obriga-me a tal.

O debate de ideias é não só salutar, como desejável. No entanto, não se confunda debate com atordoadas de quem nada tem para acrescentar à sociedade.
A Humildade é um conceito em desuso e é inversamente proporcional à Inveja. Ao passo que a humildade é a atitude consciente de quem tem o real desejo de aprender, e como tal, escuta, absorve, apreende;a Inveja é o reflexo da incompetência, de quem não tem mérito porque nunca o soube conquistar nem trabalhar para ele.
Espero neste comentário ter conseguido sintetizar o que penso sobre os cobardes e sobre o seu perfil psico-intelectual, mas acima de tudo espero, pelo menos neste Blog, não ter de me voltar a cruzar com eles.

Mario Coutinho disse...

«A denúncia não terá humildade. Doravante será registada na SPA.»
Mario Coutinho

Já me considero parte do clube. Espreito, aceno que não e fico com uma incomóda migraine. O Sr. General se anda nu, ou se solta gases ao frio, não me parece assunto pertinente. Há coisas bem mais perniciosas, que surgirão em apontamentos periódicos (se não se importam).
Ao mui douto(estou a brincar) General já não fica bem a impertinência, está velho. Isso é quando muito desculpável a um cachopo.
Innacurate issues, traduzem-se em aplausos, mal a meu ver. Outras batalhas de S. Mamerda, que felizmente D.Afonso evitou.
Ah! Mude de indumentária se faz favor.

Jorge Carvalho disse...

Ola Mário,

Penso que não nos conhecemos, de qualquer forma lanço-te o convite para apareceres às quintas-feiras no Pinguim Café. Lá estarei para ouvir o que tens a dizer.

Dark Bottom disse...

Meus caros, vou tentar aparecer esta noite no Pinguim, para ver de que tanto falam.
Quanto ao resto, citando Fiodor Dostoievski, "Chigalióv é um homem genial! Sabe, é um gênio como Fourier; Porém mais ousado que Fourier, mais forte que Fourier; vou cuidar dele. Ele inventou a "igualdade"! No esquema dele cada membro da sociedade vigia o outro e é obrigado a delatar. Cada um pertence a todos, e todos a cada um. Todos são escravos e iguais na escravidão. Nos casos extremos recorre-se a calúnia e ao assassinato, mas o principal é a igualdade. A primeira coisa que fazem é rebaixar o nível da educação, das ciências e dos talentos. O nível elevado das ciências e aptidões só é acessível aos talentos superiores, e os talentos superiores são dispensáveis! Os talentos superiores sempre tomaram o poder e foram déspotas, sempre trouxeram mais depravação do que utilidade; eles serão expulsos ou executados. A um Cícero corta-se a língua, a um Copérnico furam-se os olhos, um Shakespeare mata-se a pedradas - eis o chagaliovismo. Ah, ah, ah, está achando estranho? Sou a favor do chigaliovismo!"