quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Pesadelo

Sei que não é disso que Eugénio de Andrade escreve quando passa ao papel o grito "É urgente destruir certas palavras,/ Ódio, solidão e crueldade,/ Alguns lamentos,/ muitas espadas." Ou talvez seja e o postador é incapaz de ir além da compreensão do poema para lá das circunstâncias em que se encontra. Eu sei que a paixão que nos foi transmitida, havia já entrado este dia, pelo Vasco, não é a da guerra, não é a daquele monstruoso general espanhol que gritava "Viva la Muerte" (numa sala em Salamanca, reza uma lenda, onde António Machado tinha acabado de falar sobre a cultura portuguesa) quando as tropas nazis se preparavam para estilhaçar a Europa. Mas a paixão sobre Segunda Guerra Mundial, os contornos que a anteciparam e que a fizeram grassar vidas, Vida, para a alegria daquele moribundo espanhol que apenas respirava, e expirava ódio e crueldade, foi trazida ao clube através de um filme, "A Queda", que mostra tudo, mostrando muito pouco. Mostra que é preciso gritos como o de Eugénio de Andrade para que nos libertemos dos hinos à morte. Antes de dormir, e já depois de ter fechado os olhos, é preciso o poema para que tente, pelo menos o postador, apagar nem que seja por umas horas, o horror da morte, da crueldade, do ódio, da solidão, da cegueira, da ceifa que significa uma guerra. O pesadelo da possibilidade que venha um novo general a gritar vivas à morte e o pesadelo real da noite persistem, apesar de o poema continuar com outros gritos fortes, de que "É urgente inventar alegria,/ multiplicar os beijos, as searas,/ é urgente descobrir rosas e rios/ e manhãs claras." Numa manhã clara em que o fim da Segunda Guerra se anunciava, estava a dias de acabar, um conjunto de mães, maridos mortos-vivos nas trincheiras vêem os filhos perecer perante os seus olhos. O horror não parava. "Cai o silêncio nos ombros e a luz/ impura, até doer." Foi assim n'"A Queda", foi assim, multiplicado por milhares a horas da queda definitiva do regime nazi. Foi assim em outras tantas guerras em que o ser humano se transforma em monstro, vil, astuto, guerreiro, um merdas. A guerra apura os sentidos aos que a combatem, aperfeiçoa os instrumentos que depois se tornam usáveis por todos nós (as auto-estradas, o carros do povo - o volkswagen -, contava o Vasco em relação aos nazis), deixa dementes os seus líderes, os que se escondem em bunkers. A vertigem da guerra torna os negociadores mais aptos, salvaguarda normas que virão a dar em direitos que chamamos humanos, ajuda a definir ideais e horrores, obriga a escolher entre bons e maus. A guerra, esta guerra, fez-se de palavras que é urgente "destruir", usando o eufemismo de Eugénio de Andrade: poder, comando, obediência cega, raça, cor, religião, credo, nascimento, ascendência, morte matada... Peço desculpa se relato mais o filme e os meus medos do que a paixão do Vasco - poderá ele escrever aqui sobre ela melhor do que eu. Como quero dormir sem pesadelos, deixo apenas uma das notas que tomei no telemóvel, dita por Eva Braun à secretária cujas memórias permitiram este filme, horas antes de se suicidar, com o seu entretanto marido e líder de um povo que desprezava: "A vida vai continuar". É isso. A vida. Ou como termina o poema de Eugénio de Andrade, entre aquele 1939/1945 a viver como José Fontinha em Coimbra, "É urgente o amor, é urgente/ permanecer." É isso. A vida. Viver.

8 comentários:

jorge c. disse...

VIVER!

Uso mais uma vez a expressão que usei num comentário a um post anterior, também do Fil e que aqui serve para os dois - o Vasco (sessão) e o Filinto (post).
Um General inglês escreve essa frase para relatar as pilhagens feitas em Portugal e os massacres às populações aquando das Invasões Francesas:

«my pen altogether fails me»

GRaNel disse...

É porventura pretensiosismo meu dizer que pertenço a clube impar. Não é que sejamos seres extraordinários ou dotados de grande capacidade. Mas esta dádiva e privar de uns copos em prol da partilha de paixões que nos torna únicos. Ontem o regime Nazi desceu à cave. É sempre bom ver o horror e a desgraça humana para que a memória se avive e possamos identificar à distância as repetições de ciclo. E elas estão mais presentes e mais perto do que pensamos. Na vizinha África, no Mundo Árabe, em grande parte da Ásia. Emfim, pelos quatro cantos...

Um grande filme, aqui fotografado por um grande post. Parabéns aos dois.

smartdrink disse...

Filinto é com grande orgulho que leio o post. Obrigado e parabêns. Está fantástico. É um orgulho pertencer a este clube e esta foi sem duvida a primeira de muitas sessões a apresentar. Obrigado.

Marta Araújo disse...

Por acaso vi, muito recentemente, o filme em causa (veio num semanário). É muito intenso, um soco no estômago e bastante susceptível de causar pesadelos. Mas faz pensar, e isso vale muito. Parabéns ao Vasco pela sessão, embora só tenha marcado presença na parte das farpas, pela escolha/apresentação daquela paixão.

O post está absolutamente fantástico doutor Fil. É caso para dizer que o pesadelo deu um bom fruto. Está mesmo muito bom.

Sinceros parabéns aos dois meninos.

filinto disse...

Eu é que agradeço Vasco, não apenas, e reiteradamente, pela sessão, como por teres gostado do post. Tinha receio por ser, mais do que um relato, uma recriação a partir da sessão, e subjectiva... ainda bem que gostaste. E agradeço também aos outros.

jorge c. disse...

Tinhas posto o Professor como eu pus. Não percebem nada disto!

Rui Vieira disse...

Antes de ver este filme, li um artigo num jornal onde se dizia que o texto escrito pela secretária de Hitler humanizava o tirano. Confesso que tal ideia atemorizou-me. Detestaria viver num tempo que desculpabilizasse o autor de um dos periodos mais hediondos da Humanidade.
Hitler surge no filme como um ser humano cativante, atento, apaixonado... e é nesse momento que vejo o manipulador.
"A Queda", é um excelente filme a partilhar e felicito o Vasco pela escolha.
Filinto, o cruzamento do filme com o poema é, no minimo, delicioso. Li 2, 3, 4 vezes... e sempre com um sorriso.

Rui Spranger disse...

O Clube dos Pinguins esta-me no sangue. A cada terça-feira penso: Devia ir ou, devia la estar. O trabalho nao me tem permitido ir, nao me tem permitido sequer acompanhar regularmente o blog. Vim trazer a minha filha a França e aproveito finalmente o tempo para vir aqui. O Post (ja me tinham dito) esta fantastico. A sessao, pelo que se lê, também o foi. Eu so sinto que devia ter ido!

PS - Para meu grande prejuizo também nao vou poder estar na proxima sessao. (Estreio na quarta de manha com o Pé de vento). Beijos e abraços