segunda-feira, 28 de agosto de 2006

Elogio a Fidel Castro, por Reinaldo Arenas

Por estes dias muito se tem publicado acerca de Fidel Castro. Na Courrier desta semana encontrei este artigo, que se destaca não só pela qualidade da escrita, mas pela experiência vivida na primeira pessoa ( Reinaldo Arenas, escreveu "Antes que anoiteça", um fantástico e assustador livro sobre a vida na Cuba castrista).


O escritor cubano Reinaldo Arenas redigiu, pouco antes do seu suícido em Nova Iorque, em 1990, um panegírico interessante ao líder máximo. Nunca publicado na íntegra, parece não ter perdido nada da sua pertinência...

No momento em que quase todos os países comunistas iniciaram um processo democrático, Fidel Castro amarrou-se ao pelourinho da opinião pública pela sua recusa em aceitar qualquer mudança a tudo o que cheire a «perestroika» ou democracia. No que me diz respeito, talvez por espírito de contradição, em vez de criticar o líder máximo, vou enumerar aqui sucintamente as suas virtudes.
Político calculista e astuto, quando tomou o poder em 1959 tinha três alternativas: 1) a democracia, que lhe permitiria vencer eleições, mas gozando de um poder efémero e partilhado com a oposição. 2) A tirania de direita ou clássica, que nunca oferece segurança absoluta nem poder ilimitado. 3) A tirania comunista, que nesse momento, além de o cobrir de glória, parecia assegurar-lhe um poder vitalício. Hábil, Castro optou por esta última solução.
Filósofo profundo, fez compreender aos seus súbditos, que a vida material não tem importância, a tal ponto que, em Cuba os bens materiais são quase inexistentes e a taxa de suicídio, segundo relatórios muito sérios das Nações Unidas, é a mais elevada de toda a América Latina. Intelectual lúcido, compreendeu que a maioria dos artistas são vítimas do seu ego hipertrofiado. Desde 1959 começou a convidar eminentes escritores, ocupando-se deles pessoalmente e mostrando-lhes o que queria que eles vissem. Castro criou prémios literários internacionais e elevou certos intelectuais fiéis, como Gabriel García Márquez, aos píncaros do Prémio Nobel. Brilhantíssimo economista, criou há quase trinta anos a caderneta de racionamento, que lhe permite evitar a inflação no país, dado que o povo praticamente não pode consumir nada. Além disso, através dos generais mais destacados e com a participação de Raúl Castro, dedica-se ao tráfico internacional de drogas, como atestam documentos publicados. Isso proporciona-lhe divisas fortes, que usa para financiar o aparelho de propaganda no exterior e apoiar a subversão armada na América Latina.
Especialista em sexologia, formou magníficos exércitos juvenis de guias-intérpretes de turismo e tradutores, que concedem os seus favores tanto às senhoras como aos cavalheiros convidados. Criador de gado e agricultor ímpar, conseguiu que uma vaca produzisse mais de 100 litros por dia. O pobre animal não sobreviveu e o leite continua racionado em Cuba. Mas a sua memória foi imortalizada pela imprensa da época e Castro mandou reproduzir em muitos exemplares o extraordinário espécie bovino. Em 1970, afirmou que produziria dez milhões de toneladas de açúcar «e nem um quilo a menos»: enganou-se apenas em dois milhões de toneladas.
Aluno aplicado, fiel ao mestre, seguiu com ortodoxia irrepreensível as lições de Estaline: libertou-se, por todos os meios, de adversários políticos ou personagens que pudessem denegrir a sua glória, de Huber Matos a Carlos Franqui (figuras da revolução que depois se opuseram ao regime castrista), passando por Camilo Cienfuegos e Guevara. Criou, em 1961, campos de concentração para dissidentes de todo a espécie e oficializou-os em 1966 sob a denominação elegante de Unidades Militares de Ajuda à Produção. Deslocou a população de aldeias inteiras, onde havia focos de guerrilha castrista, para novas cidades perfeitamente vigiadas. Foi o caso, em particular, de muitos camponeses da província de Las Villas, que tiveram de ir viver para um aglomerado de prefabricados como Pinar del Río, denominado Ciudad Sandino. Além disso, há quase trinta anos, que multiplica as purgas políticas e os processos viciados. Durante estas sessões, o arguido, após ter passado semanas ou meses nas celas da Segurança do Estado, confessa publicamente toda a espécie de crimes, diz-se miserável e traidor contra-revolucionário e, naturalmente, inimigo de Castro. Exemplos: o processo de Marcos Rodríguez (fuzilado em 1964), o do general Arnaldo Ochoa (fuzilado em 1989) ou as confissões do poeta Heberto Padilla, que chegou ao ponto de denunciar os seus amigos mais íntimos e a sua mulher, em 1971.Fiel à política de «bloco monolítico», Castro aprovou a repressão da Primavera de Praga, a invasão do Afeganistão e o massacre de estudantes chineses na praça Tianannem.
Estadista sagaz, Catro sabe perfeitamente que um ditador nunca deve organizar eleições, pois perderá o poder. Daí as fúrias negras, a seu ver justificadas, contra os intelectuais(incluindo seis prémios Nobel) que lhe enviaram uma carta aberta pedindo-lhe, civilizadamente, eleições livres. Castro rejeitou habilmente qualquer consulta popular, contrariamente a outros ditadores menos astutos, que convocaram eleições crendo poder ganhá-las. Lembremos as derrotas pungentes do general Augusto Pinochet ( no Chile) e do comandante Daniel Ortega (na Nicarágua).
Nada pode surpreender-nos na atitude actual de Fidel Castro. Ao longo de mais de 30 anos de poder absoluto, sempre foi fiel a si mesmo, governando com uma habilidade tão maquiavélica que hoje é um dos únicos herdeiros de Estaline a continuar no trono.
As raras pessoas que ainda estão ofuscadas pela imagem «reinvindicativa» e mesmo «heróica» do comandante surpremo não devem alimentar ilusões. O próprio Castro disse, através do seu exército, que não cederia «um milímetro da (sua) ideologia» e declarou que preferia « que a ilha se afundasse no mar a renunciar aos (seus) princípios políticos»...
Evidentemente, cabe ao povo cubano decidir se deseja este mergulho apocalíptico ou se prefere viver em paz na liberdade, como felizmente acontece, hoje, com uma grande parte da humanidade.
Reinaldo Arenas

4 comentários:

rodrigues76 disse...

Reafirmo a minha posição, tanto no comentário ao aniversário de Marcelo Caetano como no post Chamada Geral...

Fidel Castro pertence a uma classe de elite entre os politicos... De um modo geral não gosto de nunhum, mas se à manipulação politica juntarmos inteligência e esperteza, sagacidade e opurtunidade, conhecimento da natureza humana e falta de respeito pela mesma, então criamos um monstro... E o mundo politico está cheio deles, até em portugal...

Deixem-me terminar com uma nota... Nenhum ditador obteve o poder sozinho, sempre se apoiaram no apoio de massas... Seja atingido nas ruas ou nas urnas...

A nossa responsabilidade (acredito eu) é não nos deixarmos iludir nem manipular ao ponto de sacrificarmos a nossa liberdade!

Jorge Carvalho disse...

Eu vivo fascinado com ditadores desde pequeno. Dizia no outro dia um revolucionário Cubano, ex-amiguinho de Fidel, que o problema dele era o de todos os ditadores: «querem ser um marco mundial, uma figura».

Excelente artigo de Arenas. Estou em crer que este é o escritor que foi perseguido pelas autoridades cubanas dada a sua orientação sexual, mas não tenho certeza. Muito completo este texto.

Rui Vieira disse...

Caro Tó, deixaste no ar uma observação que dava para uma sessão. É certo que o poder não se obtém sozinho, mas a perpetuação no poder... não me parece que seja por vontade das massas, pelo contrário, parece-me ser pela sua incapacidade/impossibilidade de opção.
Jorge, Reinaldo Arenas é de facto o escritor cubano perseguido pela sua homossexualidade, mas não só. Aliás se fosse por isso, um consideravel numero de cubanos seria perseguido. Arenas foi também um opositor político de Fidel. Embora de esquerda, desiludiu-se com muitas medidas políticas de Fidel, conforme escreve no seu livro auto-biográfico "Antes que Anoiteça"( podes ver o filme , mas sugiro vivamente o livro).

Rui Spranger disse...

Bem, concordo um pouco com todos os comentários, excepto no que diz respeito à qualidade do artigo. A ironia que o Arenas tenta é pobre bem como algumas das argumentações também o são. Dizer que o primeiro ministro prometeu um defice x e que no final houve um defice de y, é pobre. Por outro lado, não deixa de ser importante chamar a atenção para o Ditador que é o Fidel Castro e, por muito românticos que possâmos ser não devemos cair na tentação de o defender.



PS1- Muito obrigado Vieira pelas músicas, e esta que está a rolar no blog é absolutamente fascinante. Estou viciado.

PS2- Que tal arrancarmos com o Clube na proxima terça-feira? Já estamos na rentree politica, não?