sexta-feira, 18 de agosto de 2006

Chamada Geral

avisam-se todas as polícias
fugiu um homem

tem
olhos muito abertos
duas mãos dois pés
caminha persistentemente

atenção
supõem-se que é perigoso

sinais particulares:
baixa-se com frequência
para fazer festas a um gato
apanha folhas caídas
antes que o varredor as leve
gosta de tremoços

atenção
GOSTA DE TREMOÇOS

repete-se
avisam-se todas as polícias
anda um homem à solta
à solta

atenção
tem-se como certo
que é
realmente perigoso

os aeroportos
já estão sob vigilância permanente
tudo está a postos
não poderá passar
por nenhuma fronteira
que seja conhecida

insiste-se
avisam-se todas as polícias
anda um homem em liberdade

atenção
em liberdade

delações muito recentes
permitem afirmar
que fala com frequência

todo o cuidado é pouco

consta também
embora sem referências concretas
que está sempre presente
nos locais os mais suspeitos
apela-se com insistência
para o civismo de todos os cidadãos
para a denúncia rápida e eficaz
há recompensas

atenção
anda pelo país um homem
livre

não se sabe o que fará

exige-se
a quem o vir
que atire imediatamente
é urgente

atenção
atenção
chamam-se todas as polícias
uma informação
da máxima importância
relatórios afirmam
que frequentemente
sorri com extrema virulência

repete-se o apelo
ATIREM A MATAR
NADA DE PERGUNTAS

in, Novos contos do Gin de Mário-Henrique Leiria

4 comentários:

Jorge Carvalho disse...

O meu amigo Zé Moreira, actor que admiro não só como tal mas também como pessoa, fez os Contos do Gin Tónico e , se aquela coisa em que ele não acredita, que é Deus, quiser, voltará a fazer.

O Mario Henrique é um personagem fantástico, um homem de uma capacidade intelectual invulgar cujo nome soa estranho à grande parte dos tripulantes da jangada de pedra. Para além dos Contos, tem uma obra interessantissima intitulada «Aguenta Rapaz».

Obrigado Tó por esta maravilhosa surpresa. Talvez fiquem intrigados como poderei eu adorar um esquerdonga como este, mas como dizia Oscar Wilde a arte é o Belo, não a imitação da Vida.

P.S. Que provocação nos 100 anos do Professor Marcelo. Depois ajustamos contas.

Rui Vieira disse...

é sem duvida lindissimo este poema (ainda por cima inspirado num dos mais belos poemas jamais feitos em Portugal, " a invenção do amor" de Daniel Filipe). Claro que é mais do que estético, é pleno de sentido e inquietante.
Será que o Tó se recordou dele depois de ler o post sobre o Marcelo Caetano ou após a foto do Fidel Castro.
Diluindo dicotomias esquerda/direita, as atrocidades encontram-se de ambos os lados da barreira.

Vitor Elyseu disse...

não conhecia o poeta nem o poema mas parece que foi escrito hoje sem tempo nem espaço,os homens livres devem ser capazes de caminhar e comer tremoços e arrotar e cagar e tudo o mais acabado em ar e er.
p.s.-parabéns aos três ilustres resistentes destes dias no blog querido do clube dos pinguins:TÒ,Jorge(o general sem medo) e o Rui Vieira

Hugo Valter Moutinho disse...

Muitos parabéns Tó por esta relíquia. É realmente um poema intemporal, cheio de loucura e fúria, mas que não deixa de nos pôr a pensar. Obrigado por esta partilha. Excelente escolha. ;)