quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Que bela é a vida no campo



Não sei onde nasceu este preconceito de que no campo é que se está bem. Sempre ouvi o mesmo discurso:
Ah e não-sei-quê temos a nossa agricultura biológica, as verduras fazem realmente bem, não têm químicos e são mesmo saborosas. Ah e tal e os nabos são duros, as cenouras cor-de-cenoura e não cor-de-laranja e os grelos verdinhos. Mas vocês não percebem o que é viver, de facto, com animais, nunca beberam leite das tetas da vaca, sem pasteurização, nunca ajudaram a estrumar, nunca ajudaram na matança do porco.
Para ser sincero, não, não percebo um caraças disso. Das vacas gosto do focinho, para fotografar; da matança do porco, que já assisti; estrume é aquilo que calco nos jardins; nunca beberia leite de uma vaca... e quanto ao resto compreendo mas dispenso. Dispenso de tal forma que se houvesse mais gente tinha dispensado escrever este post. E se não tivesse já vontade em dispensar fazê-lo ficaria porque o senhor da sessão, que é de Aguada de Baixo, freguesia de poucos mas honrados, gente de fibra e de cumprimento fácil, o Granel, tinha-me deixado sem vontade: "Ui... és tu que fazes o post? Tás F***". Estaria se ele fosse de Ah e tal e não-sei-quantos!, coisa que sabemos que não é.
Foi-nos apresentada a sessão quando olhávamos para a Serra do Pilar, um dos extremos do centro histórico do Porto, cidade desde sempre, com alguns toques campestres -- como aquela laranjeira ali nos vizinhos do lado.

Foi tão difícil escrever o post que demorou uma semana. Os parágrafos anteriores estão aqui desde quarta-feira de madrugada, não consegui adiantar mais nada. Ainda agora não sei o que escrever. Trocamos umas ideias sobre a noite no campo. Imaginamos estrelas cadentes. Ouvimos histórias de gente que compreende o ciclo da vida, que compreende que está no topo da cadeia alimentar. Falamos sobre o campo e a cidade, sobre um tempo que foi e outro que está. De como o tempo passa no campo. De como ele foge na cidade. Falamos de tanta coisa, enfim, falamos de como se conversa calmamente no campo, assim calmamente.

Mesmo que o Granel não tivesse levado as chouriças caseiras ou lembrado os morangos, mesmo se não tivessemos varanda com vista para a laranjeira, mesmo que não recordassem as experiências no campo, mesmo que não tivessemos mais nada, tivemos a conversa -- ou melhor, estivemos na conversa. Calmamente, como no campo. E por isso foi tão difícil de (d)escrever.

6 comentários:

jorge c. disse...

Grande post!

Este cabrão tinha logo de fazer esta sessão na minha altura de exames.

Rui Spranger disse...

O post não é grande, é é MUITO BOM!

Podiam ter guardado umas chouriças par os infelizes que não puderam ir.
Eu até estive lá e ninguém me avisou de nada!!!
Com amigos assim...

Aguia disse...

Amo da mesma forma a cidade, como o granel ( e outras pessoas) amam o campo.

Infelizmente sou um citadino de quarta geração, assim sendo o ruido dos carros e a minha musica de embalar:)

Granel, fantastica sessão, para um alien da vida campestre ( que sou eu) foi uma sessão maravilhosa, pois o BUINHO E A CÛMIDA, vieram mesmo a calhar, e as historias dobre o campo e as aventuras nesse local belo e verde, foram divinais.

Fil palavras para quê... e de novo um post do mais alto gabarito jornalistico. Um abraços para os dois

Otília disse...

Bem Filinto, só tenho uma coisa a dizer-te... se não te deixaste convencer, pela sessão e os encantos da "Vitoria", se não te renderes aos encantos do campo durante o fim de semana...

Passa a ser responsabilidade minha converter-te...e mostrar-te uma aldeia "à séria", perdida no fim do mundo... Fica o convite!
(Sem matanças, prometo!)

Parabens pelo post, ainda não foi desta que te viste "f*", para dar resposta à altura.

Beijinhos

filinto disse...

De fins-de-semana tenho experiência... mas talvez fosse interessante o clube encontrar uma forma de fazer uma sessão de fim de semana.

Rui Vieira disse...

Sempre que leio um post das sessões, fico com a mágoa de ser um citadino que no seu lufa-lufa deixa de ter tempo para fazer aquilo que lhe dá realmente prazer.
Esta sessão e o seu post vem acentuar essa mágoa, que só seria atenuada por um pouco do vinho e da chouriça...